sexta-feira, 12 de junho de 2026

Brincar... a atividade mais séria da infância!

No âmbito da Rede Territorial Portuguesa das Cidades Educadoras, fomos convidados pela Câmara Municipal de Esposende a aderir   à iniciativa “Hora do Brincar”, a realizar no dia 11 de junho, entre as 10h00 e as 12h00, para assinalar o Dia Internacional do Brincar, reconhecido pela ONU em 2024.

Esta é "uma iniciativa que nos convida a refletir sobre o lugar que a brincadeira ocupa nas nossas vidas. Mais do que um passatempo, brincar é uma necessidade fundamental de crianças e adultos."

À primeira vista, pode parecer estranho que seja necessário reservar uma hora específica para algo tão natural. Afinal, brincar não deveria fazer parte do dia a dia de todas as crianças? E, já agora, de todos os adultos?

O facto de existir uma "Hora do Brincar" é, por si só, um sinal dos tempos em que vivemos. As agendas das crianças estão cada vez mais preenchidas, os ecrãs ocupam uma parte significativa do tempo livre e a pressão para aprender cada vez mais cedo, leva muitas vezes a que o brincar seja visto como uma perda de tempo ou como uma recompensa que vem depois do trabalho “a sério”.

Mas brincar é trabalho sério. Talvez seja mesmo a atividade mais séria da infância.

Quando brinca, a criança não está apenas a passar o tempo. Está a construir conhecimento sobre si própria, sobre os outros e sobre o mundo. Está a experimentar, a testar hipóteses, a resolver problemas, a imaginar soluções, a comunicar, a negociar regras, a lidar com emoções, a desenvolver a criatividade e a autonomia.

O problema é que continuamos a insistir numa falsa oposição entre brincar e aprender. Como se brincar fosse uma pausa na aprendizagem. Como se aprender acontecesse apenas quando uma criança está sentada à mesa, a preencher fichas ou a repetir conteúdos.

Brincar é aprender.

No jardim de infância aprende-se matemática, ciências, física, química, linguagem, arte, cidadania e muito mais. Aprende-se através da curiosidade, da experimentação, da descoberta e da brincadeira.

Quando uma criança constrói uma torre, está a explorar conceitos de matemática, geometria, equilíbrio e física. Quando faz um bolo de lama ou mistura água, areia e folhas, está a experimentar fenómenos relacionados com as ciências e a química. Quando inventa histórias, desenvolve linguagem, pensamento narrativo, imaginação e competências sociais. Quando recria situações do quotidiano através do faz de conta, está a compreender o funcionamento da sociedade, das relações humanas e da própria história.

A brincadeira é a linguagem da infância. É através dela que as crianças pensam, comunicam, experimentam, constroem conhecimentos e dão sentido ao mundo que as rodeia.

Quando desvalorizamos o brincar, desvalorizamos a infância.

Talvez uma das razões pelas quais a educação pré-escolar continua, por vezes, a ser desvalorizada esteja precisamente na dificuldade de reconhecer o valor do brincar. Quando a aprendizagem acontece através do jogo, da exploração e da brincadeira, há quem a considere menos importante ou menos exigente.

Nada poderia estar mais longe da verdade!                             


Criar contextos ricos de brincadeira exige conhecimento, intencionalidade pedagógica, observação atenta e uma profunda compreensão do desenvolvimento infantil. O educador sabe que cada bloco empilhado, cada história inventada, cada castelo construído na areia ou cada jogo de faz de conta encerra oportunidades únicas de aprendizagem e crescimento.

Mas brincar não é importante apenas para as crianças.

Também os adultos beneficiam da brincadeira. Quando jogamos, criamos, exploramos, dançamos, rimos ou partilhamos momentos lúdicos com outras pessoas, estamos a reduzir o stress, a fortalecer relações, a estimular a criatividade e a promover o bem-estar emocional. Brincar ajuda-nos a manter a curiosidade, a flexibilidade de pensamento e a capacidade de imaginar novas possibilidades.

Brincar é uma necessidade humana, não uma atividade exclusiva da infância.

Por isso, neste dia da "Hora do Brincar", talvez a pergunta mais importante não seja porque existe esta iniciativa, mas porque ainda precisamos dela! Porque ainda é necessário lembrar que brincar não é um luxo, não é uma distração e não é tempo perdido.

Brincar é um direito das crianças. É uma forma de aprender, de crescer e de ser. E é também um convite para que todos nós, independentemente da idade, possamos reencontrar a curiosidade, a criatividade e a alegria que tantas vezes deixamos para trás.

Que a Hora do Brincar seja apenas um símbolo. O verdadeiro desafio é garantir que existam muitas mais horas de brincadeira ao longo de todos os dias do ano.

Neste Jardim de Infância, brincar é uma obrigação diária. 

                     Veja a opinião do Psicólogo Eduardo Sá



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